VIÚVAS DA LIBERDADE


303319_349586751756932_1015907254_n (1)VIÚVAS DA LIBERDADE
Rubras eram as portas rasgadas de par em par
Do teu sorriso,
Entre negros corvos, ao entardecer das palavras já ditas,
Porém sempre novas,
Meu amor…
…e tuas mãos regressando a mim, enlaçando seda
nos meus cabelos de água pura,
caindo caravelas de pérolas pelos meus seios de esperança.

Revejo-te ainda entre as crianças,
Rodopiando a “fogueira de todas as vaidades”,
como se fosses uma árvore que jamais iria apodrecer.

Ousada era a tua voz, meu amor, meu amante, meu amigo!…
…e terna, tal como um pintassilgo.

Percorrias-me a púbis em terras de Maio,
Aquelas fervorosas noites em que falavas de Liberdade,
E me amavas sôfregamente entre o Cais da Cidade,
Ou longos pinheirais…

Infernais eram as tochas das daninhas mãos,
Que num dia de bréu e horror te levaram de mim,
Sempre a acenar
Sempre…
E eu a ti…

Soube que te mataram,
Em províncias longínquas
Do ultramar
Quando um pequeno rouxinól
Me caiu morto no regaço

Ó meu amor,
Que cascata virá agora inundar-me o rosto,
E escorrer-me pelos seios?

Onde estão tuas mãos agora, meu caminho de união?

Ó meu grande amor,
Meu segredo,
Viúva de ti,
Com tua promessa cravada coragem no meu ventre,
Que faço?

Meu amor, meu amor,
O teu nome há-de ser nosso filho.
E será Liberdade.

© Célia Moura

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