SIMPLESMENTE PALAVRAS


1510855_738880079529150_8682022220879612245_nSIMPLESMENTE PALAVRAS
Amanheceram em nós palavras novas,
E flores de todas as cores.

Toda a manhã germinaram em nós irrequietas, insolentes, calmas,
Deliciosas, bizarras.

Por quem falarão elas, as palavras, que embalo entre os seios?

Ai, noite de tempestade! – e sempre as palavras.
Ai, noite quente de Verão! – e sempre as palavras.

Palavras, palavras, palavras!

Palavras para tudo, palavras para nada!

Palavras de silêncio, de grito, de coragem ou cobardia que nem
Sequer ousam.

Tanto que se adormecem em mim as palavras!
Tanto que se me tornam escassas todas as palavras!
E pesadas!
Todas as palavras possíveis, que mais parecem impossíveis…
Agrestes, fugidias, vertentes de coisa alguma
E de nada…
as palavras!

Aquelas que todos falam, mas poucos embalam ao peito como um Filho.

Ai, os jardins das palavras!
Quão belos são!
Surgem envoltos em arte…

Mas, para que servem afinal as palavras?
E, os jardins das palavras envoltos em flores de todas as cores?
E as de mel, como são doces…as dos namorados, as dos amantes
Num refúgio de licor, maresia, e silêncio…

Já para não falar daquelas que nos fazem enrubescer um pouco
Mais, no alvorecer dos sentidos…
Ai, como são belas as madrugadas das palavras!
Mas, afinal, para que servem tanto as palavras!
Tantas palavras!

Para nada!

Enquanto não as embalarem ao peito como um filho, de nada vos
Servirão…as palavras.
Belas palavras!
Sim, no Parlamento, os Srs. Ministros dizem por vezes, tão belas palavras.
Porém o povo não percebe,
Não percebe nada!
O grande poeta também não!
…não as quer!
E depois, de que servem essas palavras?
Foram como um pássaro ferido acarinhado ao peito de alguém,
Ou foram ditas por dizer.

Palavras ditas por dizer,
É isso que as palavras são!

Existem palavras para tudo.

Palavras de felicitações, de pêsames, de ânimo, de técnicas várias,
Profissionais ou não!
Palavras próprias.
São sempre tantas as palavras!
Porém são sempre tão escassas.
Mas já alguém as embalou ao peito como um filho,
Já alguém as trouxe no ventre como uma pequenina semente?
Deixemo-nos disso agora!
Deixemo-nos ficar com elas, esvoaçar, através delas,
Aquelas que nos são tudo,
E mesmo as que nos são nada…

Simplesmente,
as palavras!

Ao Artífice das Palavras, no ano da sua morte, José Saramago.
(Homenagem ao escritor José Saramago)

© Célia Moura, in “Enquanto Sangram As Rosas…”
(Kevin Carden Photography)

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