Episódio Natalício de Infância


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Comparada com as minhas amigas, eu era uma criança pobre, para além disso preferia que me oferecessem livros a bonecas, e tinha um cão, um rafeiro chamado Piruças que o meu pai me dera aos sete anos,
e que como filha única que era, fazia todo o meu encanto. Aliás, era o meu melhor amigo. Para onde eu ia, lá ia ele, e vice-versa, porém naquele Natal não foi bem assim.
Como era hábito, íamos passar aquela época a casa dos meus avós maternos na Beira Baixa, mas como eu já estava de férias e a minha mãe não trabalhava, fomos uns dias antes do meu pai, no carro dos meus tios com o meu primo. O Piruças ficou em Lisboa com o meu pai que se juntaria a nós precisamente na véspera de Natal lá na terra.
Que saudades do meu menino!
Mas teve que ser, no carro dos meus tios, não entravam cães…
E há muito que eu tinha um enorme anseio, normal para uma menina da minha idade e difícil de comprar para os meus pais. Era uma boneca muito especial que todas as minhas amigas tinham, algumas até mais do que uma. Era linda, de cabelos compridos lisos, escuros e com um rosto perfeito, do género das “Barbies” de hoje, mas aquela era a “Tucha”, e recordo-me exactamente o preço dela – quatrocentos escudos!
Era na altura, algo dispendioso para os meus pais me comprarem, e eu não insistia. Ia brincando com as das minhas amigas ricas na casa delas.
Porém, naquele Natal, a vida e o amor decidiram cedo colocar-me à prova. E, que prova!
Recordo aquela noite de angústia como se tivesse sucedido ontem, e na minha inocência, chorando rezava ao tal Deus que podia todas as coisas. Decerto que ele me ia ouvir naquele Natal.
Lembro-me de ter feito com ela a troca, e de súbito algo que eu desejava tanto, passou a não ter significado algum para mim.
Passo a contar.
Dia 24 de Dezembro, e todos esperávamos o meu pai vindo da viagem de Lisboa com o Piruças. Desse ninguém se lembrava, mas eu acima de tudo!
A minha mãe insistira em dar-me o jantar e deitar-me no sobrado alto à luz de uma velha lamparina de azeite, e logo que o pai chegasse viria dar-me um beijinho de boa noite, o que aconteceu.
E, alegria das alegrias, o meu presente de Natal era a boneca “Tucha”!
Pulei, abracei o meu pai, a minha mãe…
Mas, perguntei de imediato pelo meu rafeiro, ao que o meu pai respondeu:

– Não o vi filha, assim que sai do carro, saltou disparado e não sei para onde foi, pois não o vi mais. Vou procurá-lo, deve estar lá para baixo.

Neste momento algo me apertou o peito. Larguei de imediato a boneca. Queria lá saber da “Tucha”, enquanto não aparecesse são e salvo o meu Piruçinhas!
Mas nada!
O meu pai, o meu avô, o meu tio bem o procuraram na escuridão da noite e nem rasto dele.
Tinha acabado tudo para mim naquele momento.
Mas o bom Deus que sempre ouve as crianças, ouvira-me, nesta minha oração:

– Se é para me dares esta boneca em troca do meu cão, eu prefiro o meu cão, traz-me de volta e leva a boneca. Não a quero mais.

No dia seguinte, lá fomos cumprir a tradição da missa de dia de Natal e ninguém me arrancava um sorriso que fosse. Não largava o meu pai, para que ele não desistisse de o procurar. E o grande medo eram os poços que sempre havia por ali sem qualquer protecção. Eu chorava e chorava só de pensar nisso.

E, já mesa posta para o grande almoço de Natal, eis que surge o meu pai, com o mais belo sorriso do mundo estampado no rosto:

– Célinha, anda cá fora ver quem eu encontrei?

Dei um pulo da cadeira, e vejo o meu tufo de pelo negro, como se nada tivesse acontecido. Abracei-o tanto, e perguntei:

– Pai, onde o encontrou?

Então o Sr. D. Piruças havia decidido passar for a a consoada, sabe-se lá a fazer o quê, e foi encontrado a alguns, poucos Kms da povoação dos meus avós, na berma da via rápida…talvez estivesse a pensar pedir boleia para regressar a Lisboa.
Malvado cão!

Uma lição de vida que aprendi logo aos oito, nove anos de idade, precisamente na véspera de Natal.

© Célia Moura
(Ilustração – Wallpaper “Google”)

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