Quatro Sentidos e Meio


1151062_506106026139891_2018940460_n (1)Quatro Sentidos e Meio
Sabem, por vezes dou comigo a reflectir no seguinte – nascemos com cinco sentidos, todos eles preciosos, essenciais à nossa vida, e estamos de tal modo acostumados a eles, que só nos apercebemos o quão realmente eram imprescindíveis para nós, se por alguma rasteira do destino um dia formos privados de algum.

Questiono-vos qual dos vossos cinco sentidos é o mais importante para vós?
Se vos tivesse que ser roubado um, forçosamente, qual seria aquele que vos faria, por assim dizer menos falta?
Deveras complicada esta questão, não é. É quase como ter cinco filhos, e ter que abdicar de um para sacrifício. Vem-me à memória certas aberrações do Antigo Testamento, um conjunto de livros repleto de crueldade e abominações, salvo raras excepções e cito o livro de Salmos, Cantares de Salomão, algo que considero belíssimo.

Em tempos conheci uma jovem mulher num hospital. Ela tinha sido brutalmente agredida durante um assalto na rua onde vivia, e dessa agressão resultara a cegueira total, absoluta de um dos seus belos olhos. Para ela, não haveria qualquer hipótese. Recordo-a bem, tinha lá internada a minha irmã para uma cirurgia, transplante da córnea. Nunca aquela alma chorou, eu diria que ela estaria todo aquele tempo em choque. Contou-me toda a história do dia do crime, e sempre relativizava a situação dizendo – “sabe que se eu tivesse sido vítima de um acidente de viação, poderia estar tetraplégica numa cama para sempre, dependente de toda a gente”, e dizia ainda – “imagine só a vida dessas pessoas”.

Recordo-a, a cambalear, nos primeiros dias, ajudada ou pelo médico, ou pelas auxiliares, pelas enfermeiras, agarrada às paredes, a tentar adaptar-se àquela nova realidade. Eu entretanto vim embora com a minha irmã, ela ainda lá permaneceu internada. E se há algo que nunca mais esquecerei foram estas suas palavras:

– Sara, sempre fui crente, não sei onde Deus estava naquele momento que não me conseguiu proteger, mas olhe, ele ainda me deixou este outro olho, que é a minha janelinha de onde posso espreitar o mundo e o meu mar.

© Célia Moura – (A publicar)
(Ilustração – Viktoria Haak Photography)

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