Uma Tertúlia no Campo


10371977_642296375854188_8331650998702647113_n (1)Uma Tertúlia no Campo
Hoje não estarei por aqui ligada à tecnologia.
Já por aqui passei, dei os bons dias aos amigos, enquanto me arranjava para o campo logo cedo, tomei o pequeno almoço e com um sorriso nos lábios e uma canção nos ouvidos. Fui embora.

Ainda nem seriam sete horas da manhã quando a porta se fechou por trás de mim. Linda a minha porta. De madeira antiga, restaurada por mim mesma tal como grande parte dos móveis da casa.
Esta mudança da capital para bem longe, para o campo rejuvenescera-me mais que um “lifting” total, mais talvez que uma cirurgia plástica por fora e por dentro… libertou-me!

Penso nisto enquanto caminho por uma tapada branca e amarela salpicada de flores silvestres – este odor a infância que sempre guardei em mim, acautelado numa caixa de cedro com fitas de seda.

Apetece-me pular de alegria e pulo mesmo como quando era catraia, apesar do corpo começar a dar sinais do tempo que carrego comigo…mas eu não lhe dou grande importância. Antes cansada, dorida e feliz, do que cansada, igualmente dorida mas infeliz.
Ao longe avisto a minha plantação, o meu hectare de terreno que tanto me custou a alcançar, burocracias, noites sem dormir, prantos de desespero e quase o desistir.
Gosto de chegar antes das pessoas que me ajudam e são de uma pontualidade como só as gentes do campo. Gosto de falar com as plantas do meu cultivo, olhá-las uma a uma como a um filho, amá-las em silêncio.

Mais tarde voltarei para casa, fazer o que chamo o trabalho de bastidores, infelizmente tudo o que produzir será para exportação. Enquanto o mesmo fruto é importado por Portugal, os agricultores portugueses são forçados a exportarem os seus. É absurdo, mas é assim.
E penso nos anos que desperdicei em vão na cidade onde erradamente nascera, num local que nada tinha a ver comigo. Mas tinha que ser feito esse percurso para chegar aqui onde estou e poder sentir que encontrei um dos meus caminhos.

Muito mais tarde quem sabe à noitinha convidarei alguns artistas da terra com quem já travei conhecimento, para fazerem parte das tertúlias lá de casa.
E bem sei que cada um faz questão de trazer algo para a ceia, o petisco como eu digo. A mim cabe-me a maravilhosa tarefa de incensar a sala, plantar velas brancas pelos cantos, para além de preparar as bebidas e a poesia a dizer nesse dia.
Vão madrugada dentro estas tertúlias, sem vizinho do lado, de cima ou de baixo para incomodar, finalmente sinto-me livre…
E já se sabe, que no dia seguinte não irei tão cedo para o campo. Mas irei decerto mais inspirada e talvez, se possível for, ainda mais feliz.

Texto – © Célia Moura 5/21/2014
(Cheryl St John Painting)

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