O Furo


O Furo – Poema de Alfredo Júnior – dito por Célia Moura

O FURO

A minha vida é feita

De pequenos nadas
Que todos juntos
Fariam uma manta.

Manta de retalhos
Retalhos de uma vida
Não só sofrida
Mas também vivida.

Mas eu pergunto
Como se pode viver,
Como se pode estar,
Como se pode existir?

Assim ?
Assim não!
Não!
Claro que não!
Podemos ver
Podemos cheirar
Podemos comer,
Mas nem sempre.

O que não podemos é andar
O que não podemos é caminhar.
Não nos deixam!
Não nos permitem!
É-nos vedado avançar!
É-nos vedado existir!

Que triste destino o nosso!
Que triste destino o que temos!
Que triste a vida que levamos.

Nós votamos e não votamos
Nós votamos mas não elegemos
Nós votamos em vão

É sempre em vão o que fazemos
É sempre em vão o que pensamos
É sempre em vão

Mas será em vão a nossa existência
Mas será em vão o nosso sofrimento?!

Não sei se é em vão
Não sei se é sofrimento
Não sei
Podem crer que não sei

Ai, como eu gostava de vos perguntar
Aquilo que eu sinto

Ai, como eu gostava de vos perguntar
Aquilo que eu penso

Mas neste momento, agora
Em que estou sentado nesta cadeira
Não sinto nada,
Não penso nada
Só escrevo no meio do meu sossego
No meio do meu desespero
No meio do meu nada.

Não, não tenho nada
No meu bolso de desespero
No meu casaco frio.
Na minha camisa
Há falta de botões.

Mas para que é que nós queremos botões?
Só num acto de beldade
Só num acto de prazer.

Botões,

Nós continuamos a contar botões,
Botões com quatro furos,
Botões com dois furos,
Botões sem furos.

Simplesmente botões.

Para que queremos nós botões?
Para apertar algo que não conseguimos
Para fechar algo que não alcançamos
Botões para fechar.

Botões.

Simplesmente botões.

Quatro furos,
Dois furos,
Sem furos.

Onde estão os botões deste País?
Onde estão os botões pais,
Onde estão os botões avós,
Onde estão os botões filhos?

Por cada botão que nasce outro morre.

Mas ficamos cada vez mais pobres
Ficamos cada vez com menos botões.

Já não há botões como dantes
Botões de seis furos.

Ai, como eu gostava de voltar a ver
Um botão com seis furos!

Com seis furos,
Com seis furos.

É nos furos que toda a gente se esconde.

É nos furos que toda a gente faz.

É nos furos que toda a gente nasce.

É dos furos que toda a gente fala.

Mas é nos furos que toda a gente cai.

Mas que furos!
Mas que gente!
Falemos só dos furos
Falemos só dos botões!
Deixemos o resto,
Que não presta para nada!

Mais vale um furo num botão que cinco homens juntos!

Mas porquê só cinco?

Mas porque só falar dos homens
Mas porque só falar dos furos?

Estão esquecidos dos buracos?

E então os buracos?

Há buracos de toda a espécie.

Nem vale a pena enunciá-los.

Neste momento esqueçamos o furo e passemos a falar do buraco.

Buraco daqui,
Buraco dali.

A mim parece-me que há mais buracos do que furos.

Há tanto buraco neste País,
Que isto mais parece uma peneira do que uma Ilha.

Chamei Ilha e ouviram muito bem.

Uma Ilha, é que nós somos.

Uma Ilha!

Uma Ilha à beira mar plantada.
E neste momento, completamente à deriva…
…cheia de furos.

Ah!
Cá estão outra vez os furos!
Não podemos viver sem os furos.
Eu digo mais, sem buracos.

Os buracos alimentam a nossa Ilha.

É dos buracos que vivemos
É dos buracos que respiramos
Será dos buracos que vamos sair?

Não sei,
Mas uma coisa digo,
Entretanto alimentem os buracos.”

Alfredo Júnior

Anúncios

Deixar um comentário:

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s