Regresso


1779052_758130770902526_4216955796707925577_n (1)Regresso
Quando entrei na antiga sala, agora mais parecendo o branco de uma fotografia, tão vazio, ainda senti aquele ancestral odor a alfazema. Tinha ficado nas origens do meu sangue.
Paredes brancas, o soalho renovado, do tecto eu fizera questão que permanecesse intacto, quem sabe para me recordar de todos nós.
Mais tarde, sim, após a tal entrevista que me aguardava na Editora, pensaria na forma de decorar esta sala, esta casa para mim tão preciosa.
Era o tempo de todos os recomeços, finalmente!

Entre as coisas que me vieram de imediato à memória foi a forma como sempre fazias a barba avô, tão meticulosamente à janela. Naquele tempo, apesar de já existirem máquinas, dizias sempre que uma barba para ser bem feita, teria que ser com a tua navalha, o teu pincel apropriado e o sabão, nem pensar em modernices de supermercados.
Era o teu ritual matinal e eu olhava-te simplesmente.
Sabes avô, ainda guardo o teu precioso estojo de barba, entre tantas outras coisas só tuas, e “vejo-te” quando olho para a janela ao canto do sobrado.

Anseio por começar a decorá-lo, mas devagar, quero fazer um género de mistura entre o antigo e algumas peças modernas, ou não fosse a decoração uma das minhas grandes paixões. Por exemplo as arcas que pertenciam à avó, todas as três, permanecem, e a antiga salgadeira ainda me fascina, lembrando os tempos em que luz eléctrica ali não chegava e os alimentos precisavam ser guardados frescos, assim era com tudo, o alimento que a terra nos dava a terra, o pão amassado que se cozia no forno a lenha, assim como a criação dos animais.
Essas coisas vão prevalecer como a lareira da cozinha que me trazem imensas e doces memórias de família.
Era aí que colocava o sapatinho na véspera de Natal, junto ao do meu primo, únicas crianças na família.

Já consigo imaginar, a minha secretária junto ao local da sala onde eu por vezes dormia, quando toda a família vinha de Lisboa e os quartos não chegavam. Almofadas espalhadas pelo chão, almofadões, velas, os meus incensos, sempre. A minha biblioteca invadindo aquelas paredes agora tão vazias, no meio a relíquia da minha máquina de escrever, primeira coisa que comprei com meu dinheiro aos dezasseis anos, o meu gato Pescadinha a enroscar-se em mim todas as noites como é hábito, enquanto escrevinho algo.
E a música, sempre Mozart ou Jazz a embalar-te os sentidos.

E neste sonho breve, regresso de novo a mim, ali, onde estou na aldeia dos meus afectos e a esta proposta de trabalho tão inesperada.
Confesso que me vou arranjando com uma certa ansiedade. Passaram-se anos que não vou a uma entrevista de trabalho. Actualizei o meu “curriculum vitae”, inclusive com foto, uma carta de apresentação e como já tinham conhecimento de algum trabalho meu enquanto “feelancer”, fui chamada para hoje ir à entrevista.
Meu coração já não pula no peito como quando tinha vinte anos e andava de entrevista em entrevista em busca da oportunidade do primeiro emprego, mas após ter desperdiçado anos a fazer algo que nada tinha a ver comigo, não posso dizer que não estou com algum rigor na minha forma de me apresentar, e aí sim pareço uma adolescente outra vez.
Elegância e simplicidade, eis as palavras de ordem que aprendi, e nada de exageros na maquilhagem.
Por vezes mais vale um belo adorno no meio da simplicidade que vários, isto no caso das mulheres, no caso dos homens tudo muda de figura, fica mais fácil, mas agora sou eu que estou em causa a olhar para o espelho que restou no quarto principal, a roupa pendurada, a fazer caretas para ele, porém decidida a ir pelo “tailleur” saia e casaco cintado, um clássico mas moderno que para além de elegante é discreto.

Eis-me preparadíssima para uma nova jornada, confiante em mim e nesta oportunidade de um novo rumo que a vida me está oferecendo.
Sento-me no carro, olho-me uma vez mais no espelho, gosto do que vejo, a chave roda na ignição como fôlego de vida e sigo caminho.

© Célia Moura – Dez/2014
(Gel Art – foto by Manolo Catarino)

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