Folhetos de Supermercado


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De tudo o que lhe sucedia, o que mais lhe doía era enfrentar os apelativos folhetos de supermercado, as promoções de tanta coisa que tinha saudade de voltar a comprar, e que uma mera decisão de vida há vinte anos atrás a fizera não só perder a saúde que possuía, como lhe quebrara todos os sonhos a nível profissional, e simultâneamente a sua condição social e económica.

Tudo acontecera desde que trocara uma vida de desafios constantes que tanto amava, para dar lugar à entrada na função pública, a tal ‘estabilidadezinha’ que a família tanto emocionalmente a incitara, e à qual cedera, não imaginando que aquele não era, nem nunca poderia ser o meio natural.
Quantas vezes quisera sair! Quantas vezes a vida não lhe tinha permitido, sempre as oscilações de um país corrupto e demasiado medíocre para quem é só.
E Sofia adoecera. Sim, na alma e no corpo.
A discriminação, a falta de afecto, a desumanização transformam-se em doenças quando não se gritam, e ela nunca gritara…

Faltam ainda dez dias para voltar a receber o salário e já nada resta do que recebera. É sempre assim, o mesmo tormento, a mesma aflição.
Pediu dinheiro emprestado para conseguir continuar a ir para o trabalho de carro e assim poder vir almoçar a casa, o que recebe de subsídio de alimentação não dá sequer para uma sopa e uma tosta, o pequeno-almoço toma em casa, o lanche leva para o serviço como os colegas.

No átrio do gigantesco edifício onde mora, frio, de gente anónima, existem sempre os folhetos de supermercado, que Sofia insiste em folhear, e assinala os produtos que tanto necessita, ainda que não tenha forma de os comprar.
Sofia é considerada rica para a Segurança Social com os seus 505€ de salário que têm que dar para ela e para o marido sem trabalho, ainda que gaste mensalmente uma pequena fortuna na farmácia. Sim, Sofia é doente mas não pode aceitar a aposentação proposta pois isso seria um pequeno luxo na sua condição.

Mas ela sonha e sorri ao olhar a lista do supermercado.
Imagina o dia em que poderá lá voltar e comprar toda a comida que tanto deseja, não só para ela mas também para dar.
E sonhando adormece com o folheto junto ao travesseiro, todo anotado a tinta azul nos produtos que ela tanto quer e precisa.
Todos os gritos emudecem nela, até vir um novo folheto para que possa continuar a sorrir, a persistir.

© Célia Moura
(Imagem – “Google”)

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