‘DeSeMpReGo’ – Efeitos Colaterais


11033726_789925317723071_3393303413991426669_n‘DeSeMpReGo’ – Efeitos Colaterais
Após o impacto inicial ali ao balcão onde fora chamada e era um número entre tantos, Rita não conseguira pronunciar palavra alguma. A frase fria, cortante dita da boca de uma senhora talvez mais velha do que ela desarmara-a totalmente – “pois é minha querida, temos um problema, é que apesar dos seus quarenta e quatro anos, a senhora é considerada demasiado velha para o mercado laboral e nova demais para se aposentar, vamos ver o que conseguimos” – e Rita atónita olhava a funcionária do Centro de Emprego, local onde estava para que a pudessem afinal ajudar.
Nem sequer iria ter direito a subsídio de desemprego, porque no último local onde estivera a secretariar o presidente de uma fundação, ao final de um ano terminara, assim que cessou o mandato do Sr. Dr. Damas que tanto a apoiara
Só quando saiu para a rua se apercebeu que não continha as lágrimas, entrou no velho automóvel e desatou o pranto há tanto contido nas entranhas.
Aterradora era a solidão que se apossara de todo o seu ser.
O caso de Sofia apesar de diferente por estar a receber subsídio de desemprego, não queria dizer que não fosse ingrato.
Trabalhara uma vida inteira dedicada ao ramo automóvel e quando o stand abriu falência, tinha então cinquenta e dois anos e nenhuma perspectiva de trabalho pela frente.
Tinha que se apresentar com regularidade no Centro de Emprego no dia e na hora indicada e aí dela se estivesse doente, pior que funcionário público a picar ponto, só para dizer – “estou viva, estou aqui” – obrigavam-na a ela e a todos aqueles que recebiam subsídio a ir bater de estabelecimento em estabelecimento com uma espécie de folha lá do Centro para carimbar e assinar no caso de não a quererem para trabalhar e assim passava parte dos seus dias de humilhação em humilhação porque muitas vezes confidenciava-me era maltratada, olhada de lado como se tivesse peçonha.
Um dia o Centro de Emprego arranjou-lhe trabalho num lar de idosos. Sofia ficou entusiasmada. Finalmente iria trabalhar, estava saturada de estar em casa, ela que sempre fora uma mulher enérgica, de fibra, de contacto social, estava efusiva, recordo-me bem. Eu confesso, um pouco apreensiva pela formação que ela não possuía em Geriatria, e na verdade em nenhum trabalho similar.
Não seria suposto algum trabalho na área dela, ou algo menos específico do que trabalhar com idosos, ou até mesmo alguma formação?!
Logo se veria a função que lhe caberia.
Poucos dias passaram e a Sofia que há tanto tempo eu conhecia, começou a entrar numa espécie de angústia, num cansaço que ia muito para além do físico, pois o trabalho era ‘pesado’ para alguém com a sua constituição física e sem a menor preparação. Dar banho aos idosos, vesti-los, dar-lhes de comer, enfim tudo o que se possa imaginar que afinal não passava de uma amostra triste e bem real para aqueles que apenas aguardavam o aceno da partida.
O quanto ela se afligia com eles, com a forma como eles eram por vezes tratados sem qualquer afecto.
Até que um dia deslocou um braço de tanto esforço que fazia e veio de baixa médica para casa sempre falando dos “seus meninos” com saudade.
Penso que a minha amiga nunca mais foi a mesma. Continua a apresentar-se periodicamente como se fosse uma criminosa numa esquadra de polícia, que neste caso se designa por Centro de Emprego, eu sempre chamei a estes locais ‘Centro de (De)emprego’ que nada de novo possui, nem sequer uma perspectiva para lhe oferecer, e assim vai passando os dias como tantos outros milhares de cidadãos.
Resumidamente abordei dois casos, o de Rita e o de Sofia. Conheço ambas. E conheço o Sérgio, o Pedro, o Luís, o Tó, a Manuela, e tantos, tantos outros, afinal o desemprego ronda quase um milhão de cidadãos em Portugal neste momento… é o que se consta por aí.
E ainda assim persiste o preconceito, ainda assim a marginalização como se a palavra ‘desempregado’ fosse doença grave, contagiosa da qual todos fogem a sete pés, mas quase todos têm familiares ou amigos no desemprego!
Mas foge-se, evita-se falar, e quando se fala quantas vezes não é para escarnecer com um sorriso entre os dentes cantando de galo no alto do poleiro, porque Português sempre foi assim e está com tendência a piorar – “Ah! Não trabalha porque não quer! Trabalho há muito, emprego é que não! Quer é viver às custas de beltrano ou citrano, quer é estar de papo para o ar, quer é viver de RSI” e quantas alarvidades mais!
E de repente ouve-se algo que nunca mais se esquece – olha-se para o chão da praceta, é demasiado tarde.
Chama-se o “INEM”, as autoridades, é um alarde geral na rua, um horror, ninguém quer ver. Foi mais um caso que talvez fique abafado na Comunicação Social.
Foi o Sr. António do 8.º Fte., estava sem trabalho há mais de cinco anos, tinha cinquenta e um anos, a esposa também sem trabalho da mesma idade.
A corda partiu e ali o término do insuportável.
Ninguém soube quem se atirou primeiro da janela, se ele se ela, mas sabe-se que há muito o suicídio era talvez única saída possível para um casal que tanto se amava e já vivera dias felizes.
Este suicídio é somente um, em nome de uma austeridade feroz, de um país dos mais corruptos da Europa e do mundo.
Um país que se vende a retalho condenando à miséria, ao desemprego à fome e à morte milhares de famílias, milhares de vidas.
Um país rasgado de hipocrisia e de sangue abafado entre o pranto de quatro paredes fechadas.

© Célia Moura, Lisboa 27.02.2015
(Steve Reid Photography)

Anúncios

Deixar um comentário:

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s