Conhecer-se a Si Próprio


200px-Raul_Brandao2“Conhece-te a ti próprio – eis o que é difícil. Ainda posso conhecer os outros, mas a mim mesmo não consigo conhecer-me. Um fio – instintos e um fantasma… Dos outros faço ideia mais ou menos aproximada, de mim não faço ideia nenhuma.
Há uma disparidade entre mim e mim. Há em mim o homem correcto, o homem igual a todos os homens – e o homem que lá dentro sonha, grita e é capaz, por insignificâncias, de imaginar um terramoto ou de desejar uma catástrofe. O que eu me tenho desfeito dos meus inimigos – o que é razoável – mas dos meus amigos que me fazem sombra!…
O meu verdadeiro ser não é aquele que compus, recalcando lá para o fundo os instintos e as paixões; o meu verdadeiro ser é uma árvore desgrenhada – é o fantasma que nos momentos de exaltação me leva a rasto para actos que reprovo. Só a custo o contenho. Parece que está morto, e está mais vivo que o histrião que represento. Asseguro este simulcaro até à cova com os hábitos de compressão que adquiri. Não sei se a maior parte dos homens é assim – eu sou assim: sou um fantasma desesperado.
O meu primeiro impulso é destruir. Depois recuo. E o meu segundo impulso é talvez atraiçoar e mentir. É praticar actos horríveis de sensualidade e de instinto. E se resisto, resisto esfarrapado. Resisto com discussões interiores que nunca acabam e um esforço que me deixa inutilizado e exausto. Resisto, arrependido de não me deixar levar até ao fim – e talvez para me dar em espectáculo a outra personagem que assiste e comenta, que assiste e aplaude com escárnio. Por isso, quando me venço, não tenho mérito nenhum; é por fraqueza ou por vaidade que não pratico o mal. E com o tempo tenho ficado cada vez pior. Mais seco e pior. Desesperado e pior. A vida, em lugar de me elevar, tem-me transformado numa ruína, onde nenhuma raiz encontra suco.
Outra coisa: só extraio sensações da vida. Sou um monstro que existe para traduzir a vida em palavras e mais nada, até chegar ao automatismo de suprimir a realidade a todos os sentimentos que não impressionam a máquina em que me transformo e que bem queria agora inutilizar.”

Raul Brandão, in ‘O Pobre de Pedir’

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