Ao Zeca Afonso


Ao Zeca Afonso
Nossos baús de prata
Lançados á fúria das águas
Que a sofrida existência
Enlouquece,
Em qual jangada, sossegadamente
Repousam?

E, nossas vestes de jasmim
Emudecem
Percorrendo ávidas mãos,
Esmeraldas,
Áridas muralhadas polidas de decepadas palavras
Em sacrifícios de aves mutiladas,
Erguidas
Perante estandartes e alardes
De mentira!

Amanhece ainda o firmamento
Da Saudade
A roçar remanescentes veredictos
De sarça inspirados,
Corroendo arestas de matéria
Na raiz dos povos.

E tu que cantas
No teu canto,
Desafias-me a voz nas entranhas da esperança,
Abraçando o exausto fôlego de sempre
Num gosto de fel,
Vinho de desencanto!

Que nos importam os vendavais
Se celebramos a cumplicidade,
Quando a foz do riso e do pranto resvala
Prenhe de silêncio acoitado na carismática agonia
Das açucenas queimadas,
E a utopia
Ainda estremece o sangue da resistência
Plantado nas cálidas margens da Ribeira!

Grândola ainda floresce?!

Ergamos somente o rosto de Abril
Ao vento!
Celebremos beijos ao divino pó do chão
E perpetuamente cantemos
Imagens de paz
Nos mansos mastros da lúcida lealdade
Em febris searas
Lapidando na memória,
Tua imensidão,
Minha compulsão…
Irmão de Liberdade!

© Célia Moura , in “Jardins Do Exílio” 29/03/2014
(Imagem – “Google”)

Anúncios

3 pensamentos sobre “Ao Zeca Afonso

Deixar um comentário:

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s