Condenação


11208669_818919238157012_3493937922306067127_nCondenação
Estou morta!

Acordei assim,
Com olhos de cherne
No alpendre branco da minha Avó
Onde sempre plantara
Meus inseparáveis livros.
A candeia de azeite continua acesa
Tal como a deixei,
A minha ribeira corre suavemente
Como quem espera alguém
E as folhas da figueira naquela manhã
Adormeciam.

Foi ela quem me fechou os olhos,
Com suas belíssimas mãos
Sorrindo, ouvia-a serenamente entregar-me
A Deus e ao verde dos campos.
Só depois longínquos aqueles que me conceberam
Trouxeram meu corpo para a cidade.

Foi aí num grito maior que entendi que a minha doce morte
Fora um sonho bom,
A maior condenação seria existir, jamais ser
E não passar do lixo que se empurra para debaixo do tapete,
A pedra da calçada que nos fere,
Que perdoamos,
Mas nem por isso deixa de ser chicoteada pelos pés de toda
A gente.

Hoje faltam-me as mãos da minha Avó,
Porém olhem dentro dos meus olhos
Há tanto tempo que estou morta!

Mãe, reclama a festa dos rouxinóis por mim,
Rebola-te bem de Alegria aquela que de teu ventre jamais pariste
E dança por amor a ti mesma em cima de minha campa rasa!

Sempre cobiçarás as orquídeas dos jardins alheios.
Maldição de não possuir todos os jardins!

© Célia Moura
(Alex Stoddard Photography)

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