Sofia Mutilada, Sofia Bipolar, Sofia = Dor


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Sofia entendera naquele dia que não importava quem era, o que fizera ou de onde viera para que de súbito uma desgraça assolasse a sua vida de tal forma que derramasse como um cargueiro em alto mar, veneno em todo o redor, aniquilando vida, ainda que ela tivesse sobrevivido.

Era uma tarde linda de Maio.
Tinha ido visitar seus Pais numa zona considerada nobre daquele Concelho a transbordar tanto de miséria como de abundância, reflexo de um país às portas de uma “Troika”, cujo primeiro ministro se tinha demitido por não ver aprovado no Parlamento as suas últimas medidas.
Tal como milhares de cidadãos nada tinha a ver com isso.
Solicitara ao seu médico apoio porque lhe tinham retirado há bastante tempo todas as suas funções no local onde se empenhara sem êxito algum.
A única pessoa que lhe dava algum valor era sua Chefe de Divisão que com as novas Estruturas do Município for a embora e fizera muito bem porque as suas capacidades eram segundo Sofia demasiado elevadas para desperdiçar num local tão medíocre quanto aquele onde tanto mal se dizia das pessoas que desejavam fazer algo e até faziam mas pouco ou nada lhes era efectivamente digno de louvor.

Para além de outros problemas de saúde crónicos, tinha-lhe sido diagnosticado patologia bipolar, ou maníaco-depressiva porque é exactamente a mesma coisa. A diferença tem a ver com o nome que se dava nos anos 90 e aquele (um pouco mais fácil de soletrar) após o terceiro milénio.

Sofia, brincava com isso perante todos. Era fantástica!

Quando tantos na sua situação estavam internados, ela trabalhava o dia inteiro num ambiente cortante de função pública, por vezes sem dinheiro para a gasolina ou para comer.
Nas crises mais agudas conseguiu suportar toda a dor e deu até entrevistas para mestrados e documentários dos quais não gosta de falar ainda hoje.

Como costuma dizer – “É um horror estigmatizar esta doença! E a questão é exactamente esta, trata-se de uma doença como qualquer outra, falta de uma substância como a serotonina no cérebro humano, da qual ninguém está livre. É preciso encarar esta merda, ou então esta sociedade nunca admitirá pessoas com uma doença deste género.
Que se lixem para o que pensem de mim!”

Sempre fez a medicação, mesmo quando teve anos sem ter um psiquiatra e escrevia cartas para o Director do Hospital Júlio de Matos onde sempre fora assistida, inclusive em Psicoterapia, mas veio uma legislação qualquer que “vedou” a sua área de residência ao Hospital, tendo-a resignado ao Centro de Saúde com dois médicos os quais ela bem conhecia e não apreciava enquanto profissionais.
Não direi nomes como é evidente e correcto.
Como tal rejeitou ser seguida por algum deles e explicou o porquê ao tal Sr. Director do Hospital Júlio de Matos que se esteve literalmente nas tintas.

Mas desde quando é que uma doente psíquica ainda que tenha sido Juíza tem direito a algo?!

Pobre Sofia, pobre louca, pobre maníaco-depressiva, ou deverei dizer doente bipolar!

Comecei este texto falando de Sofia e de algo grave que lhe sucedera e irei terminar porque Sofia é uma mulher que pode falar mas sua voz não tem eco então falar ou estar em silêncio será exactamente o mesmo.

Nunca as suas palavras serão levadas tão a sério quanto as de alguém que a conhece há anos vive à “margem dela”, sem que ela possa imaginar sua importância que tem seu testemunho de vida.

Como me disse um destes dias – “Sou tão nada, tão merda, tão insignificante.”

Um dia irei mostrar-lhe o quanto ela significa, o quanto significam todos aqueles que aparentemente não têm voz. Todos os estigmatizados e rejeitados de uma sociedade que deveria ter algum bom senso para primeiro aceitar e só depois quem sabe tentar julgar se fosse caso disso.

Sim, um dia alguém falará acerca deles e de todos os porquês que ficaram por registar.
Daquele Sábado e da desgraça fincada para sempre na vida de Sofia, direi que recordarei o sangue, o grito e a dor.
Dois bares repletos de gente, toalhas de papel insuficientes para amparar o sangue que escorria do seu belo rosto e uma pedra da calçada que se erguera imponente daquela rua tão imunda, para desfazer seu seio esquerdo, o qual nunca foi possível recuperar.
Quem foi?
Um rapaz a quem dera um cigarro, que nunca tinha visto, e que só depois soubera que estava em liberdade condicional e ilegal em Portugal.
Assim era a vida à qual fora designada. Viver num género de “bairro social” onde tudo circulava à vontade com a concordância e o aval de todos.
Quem era contra estava pronto a abater.

Ele continuará a cumprir pena de prisão mas em poucos anos findará.

Sofia tenta sobreviver cá fora entre as próteses e as cirurgias, mas nunca mais conseguiu trabalhar. Começou a sofrer de crises de ansiedade e pânico.
Condenação que sentirá todos os dias, vinte e quatro horas por dia até ao dia em que finalmente partirá.

A indemnização que lhe deram deu para pagar a primeira prótese, as primeiras despesas e o advogado, o restante (muito mais de metade da indemnização), o País onde nascera (Portugal) mandou-a literalmente à merda humilhando-a como se ela tivesse sido a criminosa.
Achei que vos deveria contar esta história, porque tal como um seio eu poderia estar a falar de um olho, da visão ou algo tão precioso quanto isso.

© Célia Moura, 15.X.2015

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