Eu queria ser uma tela!


12250103_914209341996222_8744401549913226339_nEu queria ser uma tela!
Uma tela nua de branco
para sentir teu desespero, teu afecto
essa calma gargalhando embriaguez de Baco…

Adormecer em ti
junto a Modigliani e a Rivera
prender-te os sentidos madrugada fora
percorrer silêncios.

Eu queria ser a Paz que te define
o primeiro olhar de um recém-nascido
as rosas brancas no cais.

Eu queria ser um som e uma tela!
Quem dera que fosse somente metáfora e esta angústia que se encerra
calada no peito fosse gotícula de mel
suavizando tua fronte.

Eu queria ser a cama do sem-abrigo, a casa daquela a quem penhoraram a vida e a mãe de todos os órfãos.
Eu queria ser a filha amada de todos os que são órfãos de filhos, os olhos dos cegos, os braços dos que não têm mãos, as pernas dos que não podem caminhar, a voz dos que não têm voz.

Eu queria ser a música, a poesia
ser a tela e ter um pacto com Deus.
Saber-me nada para Ele mas ter a convicção que a Humanidade existia.

Ah! Como eu queria que o fluxo da vida prevalecesse intacto tal como o espírito do rio que corre na berma da infância.

Sento-me numa pedra .O som da água é tão sereno quanto a tecla do piano.
Ouço todos os sons num instante.
É isso que sou.
Liberto-me.
Descanso.

© Célia Moura, 15.11.2015
(© Stef Parkinson)

Anúncios

Deixar um comentário:

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s