Breve História de um Soldado


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“Até que um dia corajosamente eu hei-de minha mãe regressar a casa, hei-de minha amada regressar a ti, Pátria minha, que estás dia e noite em mim, e tal como eu hás-de sentir orgulho em teu filho, em mim.

Até lá, orai a Deus e a Nossa Senhora de Fátima, minha mãe e meu País para que eu e meus companheiros regressemos, sãos e salvos desta tão árdua jornada que a Providêndia Divina nos incumbiu. Que seja feita a vontade de Deus Nosso Senhor, minha querida mãe, que não me seja preciso matar para não morrer.

Seu filho,
Necas”

(Excerto da carta de um soldado à sua mãe – 1967).

Jamais aquele rapaz, provinciano de Trás os Montes poderia ter pensado vir lá de sua terra e poder ver o mar daquela forma.
Afinal, lá na terra onde ele andava atrás das cabras, eram só montes e terras a perder de vista, nada mais. Ninguém falava de ir ver o mar. Isso era muito longe, e muito perigoso. Nem pensar em tal coisa diziam os mais idosos!
E António mais conhecido por Necas foi crescendo e passando fome, pois a côdea não chegava para tanta gente, afinal eram mais nove irmãos, e o que a terra dava era escasso para tanta boca.
Nunca passou pela cabeça daquela família que fosse exactamente aquele rapaz franzino, o eleito da família a ir para a Guerra que se havia instalado nas Províncias Ultramarinas.

O miúdo era introspectivo, porém sensível, nem sequer um dia tinha ido à caça. Dava-se melhor com os animais do que propriamente com os irmãos. Os ditos, eram indivíduos de pouca monta, ou seja, mal o pobre Tonecas vinha de pastorear as cabras todo o santo dia, levando na sacola apenas um côdea de pão com um pedaço de queijo já bolorento, lá vinham eles açoitá-lo ao caminho para que o pobre não tivesse direito ao pouco que houvesse no lanche, que nem para os nove irmãos, sete eram todos os que estavam presentes dava para matar alguma fome. E, o parco lanche geralmente eram duas tigelas de leite de cabra, com um pedaço de pão com queijo.
À janta, as coisas complicavam-se, porque a fome apertava, e todos os dez filhos se chegavam ao lume, em busca de algum milagre que os fizesse encher melhor o bucho do que na noite anterior.
Mas nada, o tal milagre nunca acontecia. Por vezes, para juntar às parcas batatas mal acabadas de cozer, lá se juntava um caldo verde com uma côdea de pão seco e duro mas que dava para encher um pouco mais o estômago.

D. Celeste e o Sr. José Maria bem que gostariam de ver saciados a fome dos seus filhos, porém todos os dias por volta das sete horas da tarde a sina cumpria-se diante da panela das batatas semi cruas. Aquele rebanho de filhos, quase tão grande quanto o rebanho das cabras, esfomeados, não deixavam a panela enquanto esta não estava vazia. E nem sequer queriam saber o que haveria para acompanhar, porque regra geral não havia nada. Eram só batatas! Mas isso era suficiente e era uma guerra entre eles irmãos para tirá-las da panela primeiro.
O nosso António bem sabia o que isso era.

Era um dos irmãos do meio. Nem dos mais novos, nem dos mais velhos. Talvez se sentisse incompreendido. Mas que era diferente, lá isso era, talvez por sempre ter sido o mais inteligente de todos, ainda que tímido.
Mas o pobre Necas (vamos chamá-lo assim) passou muita fome, e durante toda a vida nunca perdoou a mísera infância pela qual passou.
Era um rapaz demasiado sensível para aquele tipo de educação, era diferente.
Aprendeu a linguagem da própria natureza que o criava. A natureza que o cercava enquanto ele na solidão daqueles montes dias inteiros apascentando as cabras, ela sim era a sua irmã, a sua família, aquela que não tinha efectivamente em casa.
Com apenas doze anos veio sozinho para Lisboa trabalhar e ser independente.

Só mais tarde, já adulto se veio a aperceber disso, quando escreve a sua vida quotidiana no Ultramar em quadra, e quando escreve a história do percevejo quase em estilo Kafkiano. Não fosse o acidente trágico e grave de saúde que teve, uma encefalite, talvez pudéssemos hoje estar perante um vulto importante da nossa literatura. Porém, desde que caiu na cama daquele Hospital Militar de Luanda, e após três meses em coma, nunca mais até aos dias de hoje, já lá vão cerca de 50 anos, voltou a escrever coisa alguma.
Porém deixou semente, que tal como ele sente uma paixão pela escrita de início como ele, em segredo.
A sua filha.
Viu-a somente duas vezes.
Uma teria cinco ou seis anos, quando em confraternização se juntaram todos da Companhia para celebrar a nossa amizade e o facto de estarmos vivos, e a outra muitos anos mais tarde, já ela era uma mulher com os seus vinte e tal anos.
Sei que se tornou uma escritora, metamorfoseando a Dor em palavras bonitas tal como Necas fazia. Talvez por isso ele não se tenha deixado sucumbir no Ultramar, e tenha lutado tantos dias em coma.
Por isso vos vou contar a história do António, ou melhor, do Necas tanto quanto a memória não me falhar a partir daqui.

Eu sou o Francisco, de Castelo Branco, e como devem imaginar a minha designação é mesmo essa, sem piada nenhuma, absolutamente vulgar.
Não passo do Chico, mas prometi a mim mesmo escrever a história do Necas, porque ao ser somente o narrador desta história, estarei também a narrar a minha embora eu não tenha sido um grande interveniente, ou melhor, um daqueles amigos sempre presentes que nunca deixava o Necas.

A verdade é que o amor e a admiração que sentimos uns pelos outros, às vezes, é o silêncio quem melhor o exprime, a lágrima que não saltava do olho, porque ‘afinal os homens não choravam nem que vissem as tripas na mão’, por vezes, é simplesmente um abraço, um até sempre companheiro!

“Até que um dia corajosamente eu hei-de minha mãe regressar a casa, hei-de minha amada regressar a ti, pátria minha, que estás dia e noite em mim, e tal como eu hás-de sentir orgulho em teu filho, em mim.”

(Excerto da carta de um soldado à sua mãe).

E António partiu da sua terra. Primeiramente para Setúbal, onde foi assentar Praça, logo depois para Angola. E viu o mar à beira do “Niassa”.
Algo azul sem limites, imenso como jamais imaginara, nem sequer em sonhos, era tão desmesuradamente lindo.
Que diria sua irmã Cila daquilo?
Ai, se ela visse o mar?
Se ao menos ele pudesse levar nas mãos ou no olhar um pouco daquela magia para os seus irmãos.
Mas, quando voltasse, se voltasse são e salvo haveria de mostrar em nome da Nossa Sra. Da Saúde, padroeira lá da terra… Oh se mostraria o mar aos seus irmãos!
Como era possível alguém sobreviver sem ver o mar ao menos uma vez na vida!
Coisa mais linda de Deus! (…)

© Célia Moura, (Excerto de todos os excertos prováveis do Romance previsível a meu Pai) [19.II.2016]
(Imagem – Fotografia de 1962 de Lisboa para Angola (autoria desconhecida)

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