DO INFERNO, EM ESPLENDOR


11169829_820047028079121_9033560529256801556_nDO INFERNO, EM ESPLENDOR
Hoje, quero um poema suave como a brisa do mar
Ao entardecer dos amantes.
Quero um poema que inunde toda a sobriedade da sala.
Quero tuas mãos de jasmim, quando finalmente regressarem
Dessa guerra de mentira onde sempre me escondi
Qual pomba acabada de poisar, para logo a seguir levantar voo
Em qualquer brisa que pudesse pairar.
Hoje quero ser, o mais alvo cetim,
A maior violência que possa existir desta tua ausência
Cravada em meu sangue, em minha alma e nas fragas do alto mar
Massacrada de amor e júbilo por ti
Somente por ti,
Meu amor, meu martírio
Meu tango sem qualquer fim.
Hoje, quero ser um querubim.
Quero ser uma concha da praia
A rocha firme sobre a qual os homens
Solenizam juramentos
Sobre a qual os Homens julgam repousar.
Ó meu amor
Que exaurida estou da jornada!
Tua ausência corrói-me a pele fresca ainda…
Convoco todas as açucenas.
Elas segredam que hás-de voltar.
Sussurram ventos de Leste e de Nordeste
Quebram-se fronteiras
Estilhaçam-se preconceitos
Jamais mortos.
Hoje quero ser qual papoila num campo qualquer, num campo imenso…
Que mais me poderá importar?
Continuo a querer vibrar, a querer gritar ainda que ninguém me possa ouvir.
Talvez tu me possas ouvir!
Eu sei que sim.
No teu jardim de êxtase, artifícios, exílios, ou na tua guerra onde
Sempre me escondi,
Tão alheia…
Tu, igual a mim, sangue não do meu, mas alma igual à minha
Papoila como eu, ouvindo todos os segredos dos Homens,
Indiferente
À espera das mãos de jasmim e do amor
Sôfrego de Liberdade
A hastear a nossa bandeira
A bela e pobre bandeira da Verdade
Erguida sim e somente
Em mais uma árdua jornada.
Ecoam arraiais de fogo e de fome
Meu amor.
A bandeira está manchada de púrpura
De sangue
Sabe a fel e utopia
Já não sabe a maresia.
Eu só queria um poema, apenas um poema suave
Que nos brindasse na suavidade daquela sala,
Eu só queria o pão que matasse a nossa fome!
Mas os homens já não fazem juramentos firmes na rocha
Já não semeiam para depois poderem colher
Já nem sequer têm um só Deus, quanto mais Jesus Cristo, ou Virgem Maria!
Um abraço é coisa banal!
Deixou de saber a amizade…
Até a Primavera deixou de existir!
Agora é sempre Verão no reino da desolação.
Hoje, só por hoje, eu gostava de voltar a ser, a ter a imponência
Das palavras que fui
Apenas para dizer que amava
Para dizer que sofria
Para dizer que sorria
Para dizer que chorava
Para dizer tudo o que sentia…
Porém sem que eu tivesse vivido coisa alguma
Sinto que todas as palavras estão gastas, ou me são escassas
Meu amor,
Que é preciso Liberdade
Que é preciso União
Que é preciso ser Verdade
É preciso ser ainda mais Papoila no Inferno
Para as poder viver,
É preciso ser mais agreste para as poder dizer
Mas é preciso ser Demónio para as poder escrever…
…Escrever num poema suave
Digno da Poesia
Para poder ser recitado em toda a sobriedade da magnífica sala
Em todo o seu esplendor
E tornar a ser nascente, verdete, e talvez coisa nenhuma!…

© Célia Moura, in “Enquanto Sangram As Rosas…” 4/12/2011
(Deni Soul Photography)

Anúncios

2 pensamentos sobre “DO INFERNO, EM ESPLENDOR

Deixar um comentário:

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s