A Partida de Sofia


13087829_982588315123436_4605762268638113571_nA Partida de Sofia
Sofia tem quarenta anos e uma sentença de morte diante dos seus olhos.
Desde bem pequenininha tivera alguns problemas de saúde como até é normal nalgumas crianças, nada que pudesse alertar médicos e seus Pais.Sua infância e adolescência entre o campo e a cidade transmitiam-lhe a paz e a alegria de uma miúda feliz por natureza por mais que a vida lhe fosse por vezes sussurrando precipícios, gritando tragédias.
Mas a minha amiga Sofia sempre foi do género de mulher de ‘arregaçar as mangas’ e lutar ainda que estivesse cambalenado contra todas as adversidades.
Lembro-me bem que era ela quem saltava de imediato para o campo de batalha.
Crescemos juntas, talvez daí este meu afecto, esta voz que não é dela, mas sinto-a como se fosse.
Recordo bem o dia em que entrou pela minha sala adentro com toda a serenidade possível e uma série de exames com um relatório médico bem sucinto.
Disse-me somente:
– Não vamos dramatizar, eu sempre soube que um dia isto sucederia e tu também.
Peço-te apenas que olhes de vez em quando, sempre que possas pelos meus Pais. Peço-te ainda uma campa rasa, sem ‘procissões’ até lá, mas se não for grande capricho, planta por lá algumas das minhas plantas que estão comigo há anos e tanto amo, serão minhas únicas companheiras.
Fiquei revoltadíssima com todos os médicos que durante décadas a assistiram, tendo sido testemunha do seu enorme sofrimento.
Uma mulher tão bonita por fora, tão ‘apodrecida’ por dentro e com a ciência assim avançada, como era possível eu estar a perder aquela que eu considerava uma irmã?!
Desde adolescente o seu intestino deixou de funcionar, o seu estômago ressentiu-se e em todas as Endoscopias que fazia estava tudo aparentemente bem.
Mas Sofia a dada altura deixou de conseguir comer.
Vomitava em jejum absolutamente nada, emagrecia a olhos vistos, e sentia líquido no estômago.
Comia uma simples torrada com chá, bebia um café e ficava a ‘abarrotar’ como se tivesse comido um frango inteiro.
Sofia definhava e morria. Nunca ninguém soube.
Nem eu!
Deixar de existir nunca a assustara, antes pelo contrário, desejava nunca ter visitado o mundo.
Quanta dor e inutilidade ao nascer se a primeira certeza que se poderá ter é o fim de nós!
Passar por uma vida não desejada, não vivida, uma vida de dor e horror, quanta crueldade esta Criação Divina!
Após anos em consultas e exames de Gastroentrologia, nunca lhe detectaram mais que gastrites e doenças psicossomáticas, mas ela sabia que não era bem aquilo, porém a quem mais recorrer?
Sabendo que perdia toda a batalha em pleno campo de combate, levava com todas as flechas no âmago, mas continuava intacta e firme dizendo somente – eu sei que quando descobrirem o que tenho será demasiado tarde. Eu sei disso e não posso fazer nada!
Assim foi, assim se cumpriu.
Ao despedir-se de mim naquele dia, abraçou-me sorrindo e disse-me:
– recorda-te de mim com alegria, não dês crédito a coisas pequenas e sê feliz.
Uns dias depois Sofia partia com câncer no estômago sem que nada pudesse ter sido feito.
Com Sofia partia um pedaço de mim, por isso a escrevo, por isso talvez nunca poderei deixar de falar dela e de vez em quando passo pelo seu jardim onde plantei uma pequena sardinheira, um roseiral, suas amadas tulipas e relva para que sempre possa lembrar nossos campos de batalha.

© Célia Moura, 28.IV.2016
(Emmanuelle Brisson Photography)

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Um pensamento sobre “A Partida de Sofia

  1. Que grande murro no estômago acabo de receber, minha amiga.
    Creio que a Sofia seria uma pessoa muito especial… e única.
    A sua passagem pela vida não foi em vão:
    Marcou, de certeza, outras vidas, e é dessa impressão deixada, que a sua memória é lembrada.
    Aqui mesmo o foi feito…
    Cumpriu o seu destino e nós só poderemos
    aceitar o que melhor nos deixou…
    Bem-haja por essa sua amizade expressa nesta sentida homenagem.
    lmc

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