NA ALDEIA DO GINGÃO


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Ao entardecer, na aldeia do Gingão, era sempre o mesmo fado.
Andava a Rita sem rédea, pelo terreiro bailando, com este, com aquele, com qualquer um!

Ai, o estupor da pequena!
– Ó Rita!
– Ó Rita!
– Ó Rita que te chego a roupa ao pelo!
– De hoje não escapas! – gritava-lhe a mãe em desalinho, com o filhote mais pequeno a amamentar, ainda no regaço, ansiando a pobre mulher o regresso do seu Chico por vezes já borracho da tasca da Ti Albertina, descendo pelo povoado, rindo às gargalhadas e gritando:

– A noite é minha! Ó que céu tão estrelado! Ó Maria prepara a janta!
– Ai Rita, que teu pai hoje te mata!
– Ai, desgraça minha – dizia a mãe da Rita, com fúria e amor pela filha; a sua tresloucada filha, julgando-se já mulherzinha, ia desfazendo corações pela praça.
Era realmente bonita, a sua Rita, no bailarico, com o seu singelo vestido de chita, rindo e sorrindo a todos os rapazes da aldeia.
Todos trazendo já pelo beicinho, e de nenhum verdadeiramente gostava.

O raio da moça era atiradiça!

– Ai Rita, que te faço em pedaços – gritava a avó Mariana já arreliada, tentando guardar as “maganas” das cabras no curral, e as galinhas no esconderijo nocturno por causa dos ataques das raposas que o avô havia há muito construído.
Era a janta, e da Rita, nada!

O mafarrico da pequena, não aparecia!

Aquilo era o demónio à solta pela aldeia do Gingão, sempre que havia bailarico no Terreiro, e a Rita galhofeira, não queria mais nada!
Pois que lhe dessem porrada!
Ela só queria galhofa, e mais nada!

Mas, já o Chico corria povoado abaixo como louco, gritando pela Rita:
– Ó Rita, ó Rita, que te desfaço “moçoila”!
– Ó sua desavergonhada, que está tudo à tua espera para a janta!

Ouvindo o pai, ao longe, tremeu, mas naquele momento nada a apoquentaria. Tinha deixado pelo beicinho pelo menos meia dúzia de rapazes!
E, tanto que ela disso gostava!
Pôs-se a descer matreira com ar altivo o povoado em direcção ao pai. Ela bem sabia como agir com ele, que sempre tudo lhe perdoava.
Correndo encosta abaixo, lá foi cantarolando e rindo.

– Paizinho, foi a prima do monte que esteve muito agoniada, coitadinha, e eu fiquei a tarde inteira a fazer-lhe companhia.

O Chico sorriu, deu mais um trago no copito de vinho que ele mesmo fizera, deu-lhe um abraço apertado, e lá se jantou naquela casa ao lume da lareira sem mais sobressaltos, não fosse o Chiquinho requerer de quando em vez as atenções da mãe Maria.

Mas todos os santos dias de festa, lá ia o demónio da rapariga, cada vez mais bonita, cada vez mais brejeira, e era sempre a mesma algazarra naquela casa que se ouvia pela aldeia inteira:

– Ó Rita!
– Ó Rita!
– Ai o estupor da pequena que te desfaço!
– Ai, que de hoje não escapas!

Algo que escrevi em 2003 para um Recital de Poesia ao Piano, onde participei em 2004 no Palácio Valenças em Sintra no Grupo “Músicos e Poetas”.
Recital esse composto por: Poeta Paulo Taful, o Poeta Hugo Janota, o Músico e Compositor Paulo Tavares, e eu.

© Célia Moura/2003 – ( espectáculo Palácio Valenças /Sintra – Músicos e Poetas)
(Imagem – Masha Sardi Photography)

19/12/2012

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