UMA HISTÓRIA DA CRIAÇÃO DA MULHER


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Para Célia Moura
“Quando só existia um homem, ele passava o dia inteiro a contemplar as belezas da natureza por todos os lados, para qualquer canto que olhasse o belo caía sobre seus olhos. Sem ter o conhecimento do bem e do mal, só enxergava a beleza, a mais pura, de manhã até a noite, dia após dia, noite após noite. O sono era belo e mais belo ainda o acordar. Durante o dia caminhar, sentar sobre um rochedo, tronco de árvore caída, ou mesmo no chão, colher frutas e comer, deitar no chão com as mãos embaixo da cabeça e dormir, subir na árvore alta e olhar o distante que no outro dia iria até onde a vista alcançara. Tudo de bom que se pode fazer quando tem tudo à sua disposição, sem dúvidas, sem proibições, tudo natural e espontâneo. Durante a noite olhar a lua e as estrelas até o sono chegar. Acordar e caminhar de novo, ir ver de perto o que vira no dia anterior, mas quando sentisse vontade. Brincar com alguns bichos, sentar de novo, colher frutas de novo, deitar novamente no chão, recontar estrelas até os olhos pesarem, um sonho de felicidade sendo a continuação do sonho acordado.
Sem noção do mal a vida era tão leve que ele não envelhecia, continuava sem noção do tempo, pois o tempo para ele não existia. Nada com pressa esperava acontecer porque tudo acontecia naturalmente entre o pensar e ter sem nenhum impedimento. Ninguém percebia o pouquíssimo que envelhecia porque não havia ninguém além dele.
Conversar, só com os bichos e as árvores, pois não havia outro homem. Depois de olhar tantas vezes reparou que o carneiro tinha uma companheira, o gato também, o cachorro, o cavalo, o lobo, só ele não. Sentiu falta de um semelhante, algo que o completasse. Não, não era tristeza, a tristeza ainda não existia, só falta, mas uma falta que o acompanhava todos os dias e sempre mais do que uma vez por dia. Se jogava o olhar nas estrelas e caia dentro dele antes de dormir, via sem ideia do que poderia ser, a sua companheira, igual a alguns animais dormindo aconchegados uns nos outros. Quando caminhava pelos bosques, imaginava uma companheira andando ao seu lado, de mãos dadas como se fossem um só. Apareceu uma luz e entendeu que poderia existir uma felicidade ainda maior.
Assim vivia, de mão dada com a sua falta de companheira, colhendo frutas sem ter com quem repartir. Começou a ter noção do repartir, tudo era novo, saber do dois e não só do um, do conversar, do compartilhar, de outra pessoa, da ideia das coisas vividas juntos. Em todos os lugares e em tudo que fazia, lá estava a falta de alguma coisa que não sabia bem o que era. Para distrair-se ou ver coisas belas ainda mais belas, começou a colher flores e levar para o lugar onde costumava dormir abrigado da chuva. A sombra, o lugar aconchegante ficou ainda mais aconchegante com as flores. A rosa vermelha, o cravo, as margaridas, strelitzias, antúrios, açucenas, todas as cores e perfumes diferentes. A primeira casa do primeiro homem sempre colorida e perfumada, com beleza, paz, bem estar, mas… E a companheira? Enquanto não descobria, cada dia pegava mais flores e levava para casa. Sem mais lugar onde colocá-las, nem no chão, seu lugar de dormir acabou sendo algo parecido com um colchão de pétalas de rosas que nunca perdiam a cor, nem o perfume e nunca murchavam. Enquanto o tempo caminhava sua longa estrada, sua casa resplandecia luz de flores, mas, mesmo com flores tão bonitas e cheirosas ainda sentia a falta crescendo a cada dia e ganhando contornos de tristeza, mas ainda não existia a tristeza, o que seria? Não era bem a tristeza porque sem saber do mal não tinha como existir tristeza, apenas a falta parecendo mais falta. Talvez fosse o começo da primeira tristeza do mundo que naquela época era o começo de tudo a acontecer com o ser humano. Ninguém poderia imaginar o tanto de tristeza que o mundo conheceria com os desentendimentos e as guerras.
Então o primeiro homem ouviu seu coração de um jeito diferente, batendo mais depressa, querendo conversar com ele. Surgiu a primeira voz interior, ele conversando com ele mesmo. Conversavam até um dos dois se cansar. Um dia ouviu uma voz diferente em seu interior, não era a sua conhecida voz e sim de outra pessoa, mas de que? Não sabia de mais ninguém, nem imaginava o que poderia e nem de onde vinha, mas certamente ouvia, um dia e outro, e outro. Resolveu fazer o que a voz dizia, na verdade mandava.
– Pega uma pedra mais dura, com ponta e faça um buraco no chão onde você dorme, deve ser do jeito que você é, olhe-se no espelho do lago e faça igual ao que vê.
Cabeça não tinha nome, nem perna, nem braço, ou barriga. Não havia a palavra, tudo era conversado com imagens instantâneas.
– Quando terminar encha-o de flores e durma de braços abertos olhando para cima de forma que cubra todas as flores.
Assim fez. Num dia espalhou as pétalas de rosas em quantidade igual por todas as partes do buraco com sua forma e dormiu em cima delas. No outro espalhou gardênias e dormiu sobre elas. Depois manacá, jasmim, alfazema. Quando colocou flor de mel, a última que usou, ouviu enquanto dormia, aquela voz gostosa que sempre lhe dava enorme satisfação, mesmo sem entender bem o que era e sem saber de onde vinha.
– Você dormirá sete dias sem parar, terá belos sonhos e ao amanhecer do sétimo dia acordará.
Dito e acontecido. Sete dias dormiu e teve os sonhos mais lindos que alguém em todos os tempos sonhou. Ninguém tivera filhos até então, entretanto ele sonhou caminhando numa campina florida, de mãos dadas com filhos pequenos. Em sonho experimentou exatamente o contrário da falta, via-se pleno do melhor mundo, o sem nome que experimentava, mas sentia em toda a magnitude, o amor.
Quando estava no último dia de sono, perto de acordar, quem fez o primeiro homem tocou o mágico dedo nas flores compactadas e foi embora satisfeito com o que fizera.
O primeiro homem ao acordar sentiu uma mulher abraçada a ele e viu que seu sonho realizara-se, todos outros sonhos seriam naturalmente realizados. A maldade não campeava pelos jardins e o conhecimento do mal passava bem longe, ninguém precisava cobrir-se. Assim apareceu a primeira mulher.”

Joel Cavalcante – Junho de 2016

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