Os Meus Olhos


12507110_944702612280228_6385816949794147676_nOs Meus Olhos No ‘labirinto’ Dos Olhos Do Meu Pai
Quando eu era criança e olhava algo belo como uma borboleta nunca me preocupava no que a antecedia ou a levaria ao envelhecimento.
Quando somos crianças acho que tudo é um pouco assim.
Tudo flui no seu curso natural sem grandes questões.

Recordo bem o dia em que percebi o significado da morte, da noção do desaparecimento para sempre, da não existência.
Estava na sala de jantar que também servia de meu quarto, lá no meu sofá bem no cantinho, que o era de dia para as visitas e cama o mais acolhedora possível para mim assim que passava o Telejornal da RTP 1 e meu pai se ia deitar.
Todos os dias a mesma coisa, rotina à qual estava tão acostumada que para mim só não era normal quando ia à casa das minhas amigas e elas não dormiam em sofás de sala.

Mas naquele final de tarde em que se soube que o Ti Joaquim das cabras falecera, tinha eu sete ou oito anos e tanto se falou do assunto, recordo que apoiada na mesa onde já fazia os trabalhos de casa, perguntara ao meu pai o que era isso de tão terrível como a morte. Todos tinham tanto medo da morte. Para mim aquilo era muito estranho. Ele tinha que me explicar, ele, aquele no qual eu sempre confiara.

Recordo a simplicidade das palavras do meu pai, dizendo-me que quando as pessoas morriam nós nunca mais as voltaríamos a ver.

– Nunca mais Celinha, percebes o pai?
– Sim pai. Nunca mais mesmo?
– Não filha, nunca mais. Quando as pessoas morrem é assim.

Penso que terá sido a primeira vez que terei reflectido, se é que poderá existir reflexão para uma criança de tal idade!
Pensava no Sr. Joaquim das cabras onde tantas vezes eu vira cabritinhos lindos nascerem, onde minha mãe e minha madrinha iam buscar o leite e fiquei triste por pensar que não o voltaria a ver.
Iria ter saudades dele e dos cabritinhos.
Não chorei. Como foi possível!

Hoje, eu penso e penso e tudo é tão complicado.
Hoje choro!
Quanto mais penso, quanto mais anseio a busca de algo, mais me perco na sua noção e depois volto ao princípio e rio de mim porque afinal estava tudo ali, o princípio e o fim.
Ainda um destes dias percebi isso ao cruzar os olhos com os olhos do meu pai.

Talvez seja necessário cruzarmos labirintos, percorremos abismos, soluçarmos maremotos para depois serenarmos como maresia na enseada onde afinal o que desejaríamos era sempre termos sido filhos ao colo do pai.

© Célia Moura, 15.01.2016
(Silena Lambertini Photography)

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5 pensamentos sobre “Os Meus Olhos

  1. Bom dia Paulo Vasco,
    se eu me importo que partilhe este tema?
    Bem pelo contrário.
    Sinto-me imensamente grata e feliz porque assim aconteceu e nem sempre me é fácil escrever quando estou tão intimamente ‘ligada’ aos genuínos afectos e à simplicidade da criança que fui e teima em persistir dentro de mim por muito que o mundo me grite um sonoro “não”. ^_^
    Obrigada Paulo.

    Um beijo, e uma semana de Luz.

  2. Reblogged this on Sonhos Desencontrados and commented:
    A simplicidade e bela conjugação de palavras da escritora Célia Moura, na abordagem de um tema tão delicado, a morte.
    A perspetiva de uma criança e a abordagem de um pai, a qual me parece assertiva. A ler, com carinho.

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