AGONIA, EM TOM MAIOR


382897_450207405028199_1082695700_n (1)AGONIA, EM TOM MAIOR
Ai peregrina dor que te não sinto mais,
Pois que já cheguei ao estilete mais aguçado,
Entre todas as ânsias por ansiar,
E todas as paixões por desejar,
Já não há quiçá alguma
Que me possa trazer de novo a mim,
Moribunda que estou por estas farpas
Que não cessam jamais
De me alvejar!

Ai minha mãe!
Que de nada sabeis,
Nem conseguirias jamais entender!

Ó Deus das aflições,
Se de todo existis,
Tende realmente piedade de mim!

Isto não são mágoas, não são tristezas súbitas
Não são desgostos de amor ou ausências,
Esta agonia é muito mais além…

Esta agonia de corvos a rir continuamente zombando dentro em mim.

São estiletes aguçados!
São estiletes ferozes, lançados, mais que à carne,
Ao meu coração,
Tão prematuramente!

Esta agonia são cravos vermelhos sorridentes
Que não vivi,
São homens que não beijei,
São os campos em flor de pasto e infância
Onde não me rebolei.

Esta dor, minha mãe,
Não são as palavras que escrevo e não entendes,
Não são os livros que já li e os que espero ler,
Nem sequer as palavras que me afloram subitamente,
Essa que vão zombando de mim…

São todas as palavras, que como um filho
Me são totalmente, absolutamente estéreis
Sem nunca o haverem sido
Como se um estilete afiado as abortasse no caminho.

O estilete assassino da pobreza, o estilete da doença,
O estilete da solidão, o estilete da maldade, sempre o estilete
De qualquer coisa, a roçar-me na alma!

É esta penitência sempre minha,
Sem que alguém a queira.
É esta liberdade encarcerada
Por não poder falar sem ser apunhalada.

É este frio que me consome em pleno Verão,
É este calor que me sufoca em pleno Inverno.

É este Tango de amor que já soube dançar,
Mas é este tango de horror que me persegue,
Sem par.

Este estilete, são insónias!

Insónias que me consomem vorazmente

Insónias de um feto morto,
De uma mãe moribunda,
Entre a voz do povo.

Simplesmente insónias,
Tão óbvias,
Em qualquer semelhante,
Em qualquer dor,
Nas farpas que nos vão matando,
Nos estiletes que nos vão agonizando,
Entre belos e risonhos cravos vermelhos e frescas tulipas brancas…

© Célia Moura (A publicar) (23 de Dezembro de 2012)
(Ilustração – Photography by Floriana Barbu)

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