Carta a Fernando Pessoa


11112581_806118172770452_4844496024303881534_nCarta a Fernando Pessoa
Ouso chamar-te irmão, amigo
meu terno e grande amor perdido
mesmo antes de eu ter nascido.

Porque não esperaste por mim?
Quão bem te entenderia
quão maravilhosamente entenderias
estas almas que zombando vão atormentando
sorrindo, chorando
dentro da minha!

Ai, meu terno Pessoa,
meu amor
que ao descobrir-te
tanto pranto derramei pelo soalho do Tempo!

Desejar-me-ias?
Questiono-me incessantemente.

Não sei, nunca nada saberei,
aliás nada me é permitido saber sem a tua presença.
Imagino-te,
acalentando-me de mãos dadas como Lídia.

Seria, quiçá a tua menina!

Hoje, mulher,
tudo tem o odor da tua perpétua ausência
porém presença,
quando, tantas vozes gritando dentro da minha.

E, por vezes (perdoa-me), sendo amante do vento, sou tua
e venho de vestes brancas , com rosas nos cabelos
abrindo-te meu corpo de essência
por isso ouso declarar-te
nestas palavras inebriadas de tormento
que jamais ouvirás
a ínfima e patética esperança de que saibas que são somente para ti!

Talvez tu, meu terno Fernando
fosses o único homem
a amar-me
com a subtileza dos anjos ao entardecer
nos beijos da poesia.

De mãos dadas correríamos areais belos, areais feridos
Plantaríamos Mensagens novas pelo chão, ao som das vagas ferozes e bravias, pelas escarpas da Boca do Inferno,
e por ali ficaríamos
com o firmamento a banhar-nos as asas
que trouxéramos nos pés.

Por vezes, espero-te ainda
como se subitamente viesses envolto na penumbra da madrugada,
mas nunca vens,
jamais poderás regressar.
Somente os ferozes gritos do nosso mar me arrepiam esta paixão e me adormecem em teus braços.

Se viesses, meu amor, meu irmão, celebraríamos serenatas ao luar, ainda que trouxesses todos os outros,
parte integrante de ti,
meu doce poeta como te amaria!

Serias somente tu ali,
o resto pedaços de ti
e nos meus exílios em valsa pela estrada da infância
convocaríamos o néctar da embriaguez.

Sabes, ainda que te designem de génio ou de louco,
amo-te em todas as substâncias
todos os ermos de ti
Sinto o sabor da tua magnificência
que me acalentaria esta Dor,
simbiose, revoada, ebulição constante,
quiçá num “Elogio à Loucura”
como Erasmo dizia.

Mas, é quando te chamo,
e tu vens num manto de ilusão
nos noctívagos braços da púrpura emoção
rumo ao êxtase
e me levas plena até ao esplendor da tua ausência
que me sinto eu
meu grande amor de castigo
até à medula
âmago de mim!

© Célia Moura – a publicar (6 de Abril de 2015)
(lymond Photography)

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