Liberdade Apunhalada


11201871_851478134936010_9057051717627416800_nLiberdade Apunhalada
Pertenci às eras mais distantes,
Onde tudo o que era subtil era mesmo subtil
E o que teria que ser intenso
Tinha o odor a terra acabada de fecundar
Do pão acabado de amassar.

Pertenci aos belos roseirais
E a todos os temporais.
Aos longínquos pomares do meu avô
Em Proença.
E às feiras na Sobreira Formosa,
Assim como aos cafés bebidos com divinal prazer
No Martinho d’Arcada e ao elixir dos poemas na Brasileira
Deambulando por um Rio de Prata.

Pertenci aos imensos, intensos pinheirais das Moitas
E tudo aquilo era eu, tudo aquilo era meu!
Cantava descalça por todas os caminhos
Esquecida do asfalto da cidade tão mesquinha.

A inconformada “pequena” pertencia aos segredos da terra lavrada
Ao sémen que ainda não sabia
Porém adivinhava.
Pertencia às origens e à dureza, que por direito já lhe pertenciam
À essência!

Pertenci rendida a retalhos de gerações
À de oitenta, a minha, e à geração da Liberdade
Por herança de amor.

Por isto afirmo:
Pertenci às eras mais distantes
Sou filha das alvoradas
Submersa em ancestrais vozes
Mais que sangue, seiva, ousadia!

Pertenci ao sabor das azedas na boca,
Enquanto as trincava sorridente a cantarolar pela eira
E ao odor da terra acabadinha de fecundar pelo arado
Qual ventre de jeira exposto à minha pequenita mão
Ao sol e ao vento, e à rude e meiga mão do meu avô.

Pertenci às candeias de azeite e agora à soberana tecnologia,
À cúmplice revoada nas asas do condor
Aos fados e seus trinados
Natureza Mãe em ebulição que senti crescer em meus seios
De menina.

Ninguém me exilou no Tarrafal,
Mas estão moribundos todos os cravos
Nos canteiros da minha infância.

Hoje pertenço à terra que já não tem odor
Ao povo que já não tem fulgor
Às mães que já não têm a alegria que a minha teve
Quando me via cantarolar.

Talvez já não haja nada para lutar!
Talvez já esteja tudo rendido!
Quem sabe tudo findo?!

Hoje vivo liberta, por aí, em qualquer canto da cidade
Alheia, anónima, desperta
Porém enclausurada noutro Tarrafal
Sem quaisquer flores silvestres
Com vozes de denúncia apunhaladas
Entre os próprios camaradas.

Hoje, pertenço ao mundo
E a nada!

Sou poeta das palavras já ditas,
Sou peregrina nesta terra que dantes
Eu dizia ser minha
Lanço farpas como quem vê partir um filho
E sofro o meu castigo
A dor de ter sido ousada
E tal como erva daninha
Subitamente sou cortada.

Mas, cuidado ó agricultor como me cortas!
Se não me arrancares a raiz da alma hei-de sempre regressar
Parida por qualquer rasgo de madrugada.

© Célia Moura, a publicar “Terra de Lavra”
(Foto by “a gota” – Mané Lito)

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5 pensamentos sobre “Liberdade Apunhalada

  1. Como sempre, as suas palavras descrevem (lindamente) a realidade, do que foi e é o nosso país. Sente-se o orgulho perdido, do país das suas origens. Não renego o meu país, mas compreendo-a muito bem… Vivi intensamente a linda «Primavera», mas estou muito desiludida e assustada com a caminhada deste povo. Continue a «botar» as suas palavras nestas páginas, pois bem precisamos delas. Um grande abraço!

  2. Boa tarde Paulo Vasco, não imagina como fico feliz com a sua generosidade!
    Muito obrigada.
    Beijos.

  3. Vou republicar no meu blogue como forma de divulgar a sua obra, Espero que não fique aborrecida com a ousadia mas acho-a mais agradável assim, quando de surpresa.
    Este poema traduz tão bem parte de mim: a vertente revivalista.
    Adoro.
    Parabéns!

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