O PODER EM ASSEMBLEIA


556170817O PODER EM ASSEMBLEIA
Amargos de boca,
Ó gentes,
Pressinto-os ao de leve,
Porque a fúria dos meus presságios
É esta coragem que exalta
Todas as flores silvestres,
Todos os cactos,
Que até o inóspito deserto faz vibrar!

Porque me dizeis rudemente
O que devo ou não fazer,
Se nem retirais os argueiros de vossos próprios olhos?

E continuamente cegais,
Ó prostrados entre todos os vendavais!

Ó cobarde inutilidade,
Que de fúria ou de agonia nada sabeis,
Antes de palavras eloquentes sois soberbamente abastados.

Ide após mim, por favor!

Se nem suportais a dolorida angústia
De vosso irmão,
E o negais
Em sofrimento manifesto,
Que tenho eu convosco,
Ó gentes,
Ó bastardos desta vida de suplício,
Que gerais,
Amargos de boca tive-os,
Ao me parir minha Mãe,
Em fresca manhã de Primavera!

Deixai-me pois ser sangue, raiva, sonho,
Púrpura,
Ácido sulfúrico, chocolate, ebulição…
…qual catarse que me trouxe até aqui, limiar pleno,
Puro êxtase de mim!

Porém, dais-me fôlego
Quando vos contemplo assim,
Inertes, cuspindo Poder entre os dentes, sorridentes,
Sempre tão contentes!

Dais-me gozo nas entranhas!
Que de minha própria dor nada sabeis!
Adocicais-me a língua, ainda assim,
Tão pouco viperina.

Vós, mereceis muito,
Muito mais!

Merecíeis que minhas palavras
Fossem escorpiões a bailar pelo chão onde andais,
E minha língua um afiado estilete
Entre as pedras do caminho,
Ó atormentados do Destino!

© Célia Moura – in “Enquanto Sangram As Rosas…”

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