Quando a Beleza se torna Maldição


Art/e (c) Francine Van Hove Painting

Art/e (c) Francine Van Hove Painting

Quando a Beleza se torna Maldição

Lembram-se de Sofia?
Sofia quer falar, então eu vou deixar.
Vou ser sua narradora já que sou sua maior confidente ainda que não tenha habilitações de psicóloga, porém sempre fui sua melhor amiga desde a infância.

Por mais estranho que possa parecer Sofia agora perto dos cinquenta anos mas se sentindo a mesma menina de sempre, pois seu espírito não conseguira acompanhar todas as mazelas de seu corpo, e era como se tivesse estancado a vida nos trinta, bem no auge da sua beleza, reflectia acerca disso mesmo a beleza tremenda que Deus lhe concedera e que tanto menosprezara, porque na verdade a sociedade que a cercava sempre exigia dela muito mais e o seu nível de auto-estima desde jovem estava no subsolo.
Ela até se considerava bonita, em todo o lugar lhe gritavam o quão bela era, fotógrafos e agentes de moda perseguiam-na para que aceitasse ser modelo fotográfico e as propostas caiam sobre ela, sua cabeça tão confusa, seu sofrimento indizível.

É verdade, poderia arriscar que se Sofia tivesse auto-estima, confiança, aliás se tivesse sido amada algum dia desde que nascera e aceitasse alguma das propostas que logo aos dezasseis anos lhe fizeram quem sabe não tivesse uma carreira brilhante enquanto modelo internacional.
Sua beleza não era ofuscante, mas exótica. Um misto entre a mulher napolitana, a mulher egípcia e a de alguns países da América do Sul como da Venezuela ou Argentina onde tantos perguntavam se ela era oriunda.
Até árabe perguntavam se ela seria ou sua descendência.
Mas não, para espanto de muitos Sofia respondia que era Portuguesa e seus Pais também assim como toda a família.

O corpo de Sofia que nada fazia para isso, permaneceu uma escultura talhada pelo mais criterioso Mestre quase até aos quarenta anos, seu rosto uma perfeição que enfeitiçava.

Não sei quanto tempo poderia estar aqui a falar de Sofia e do que a vida lhe proporcionou enquanto teve toda esta beleza física.
Poderia estar horas. Poderia falar dos seus grandes amores, dos corações que despedaçou, dos homens que nunca sequer tiveram coragem de a abordar, das invejas que criou, do quanto foi até maltratada, perseguida, atormentada.

Mas vou apenas dizer que a Sofia de hoje nem sequer se olha mais no espelho. Sair de casa tornou-se um suplício porque engordou devido a graves problemas de saúde.
Ela diz-me que simplesmente não gosta que olhem para ela.

Continua a ser a mulher cuidada que sempre conheci, continua a ter o mesmo penteado, os mesmo lábios o mesmo olhar inseguro de bichinho assustado (quer virar fera mas por muito que tente não consegue).

Todos aqueles que a conheceram há vinte anos atrás exigem que ela tenha exactamente a mesma beleza.
É um absurdo!
Ninguém é igual após vinte anos passados.
Quanto a mim continua bonita, mas Sofia já não consegue sair de casa.

E tantas vezes me diz que gostaria de nunca ter sido sequer uma mulher bonita, porque a beleza pode ser uma enorme maldição sob vários aspectos.
Eu concordo com ela.

Sofia deixou de amar as pessoas porém ama a humanidade.
Um dia disse isto ao seu psicólogo que apesar de dizer que a entendia nada lhe conseguiu explicar e isso eu também não sei definir.

© Célia Moura, 29.VII.2015
(Francine Van Hove Painting)

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