Carta a Florbela


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Carta a Florbela
Quão grandioso sopro Divino te incendiou
E desventurou, ó “Poetisa Eleita”,
Magnífica princesinha banida
De Reinado tão distante!

Ninguém em ti,
O firmamento somente,
Em quimeras, sorridente
Gerado no Amor de tuas pálidas mãos acenando lamentos.
Ó cruel ascese,
Intangível revelação de Fim!
Ninguém em nós amiga minha!

Quem poderia sequer, entender tua Beleza,
Sobrevoando cúmplices revoadas nas asas do condor,
Silenciando teu corpo,
No grito das planícies!?

Quem poderia Florbela,
Corromper tuas entranhas,
Misterioso exército,
Martírio em teu Ser?

Ó desventurada irmã,
Que somente te chorei a Dor imensa,
Na Torre maior da Tristeza de te não ver,
E florindo te beijei “Charneca em Flor”,
Lânguidos candelabros pela praça!

Ai mendiga das marés,
Etérea em todas as searas,
Clamando sempre mais além!

Longínqua em terra ingrata,
Embriaguez de Vida,
Ânsia de morte ou de Alguém,
Companheira de infinito,
Rodopiando alento
Na ferocidade do Tempo!

Tudo tão perto,
Todos tão Além!

Terás porventura encontrado teu lauto amigo,
Teu bem-amado…excelso Amor?
Aconchegada estarás decerto,
Mãe de coragem,
Amante de todos e de ninguém,
Semente por tuas mãos lançada à terra amada,
Teu útero de sossego.

Ressonância de término e de princípio,
Ó insubmissa papoila,
Singela Florbela,
Sangue a fervilhar ainda
No ventre da Charneca,
Memorial a palpitar devir
Em todas as alvoradas!

A Vila Viçosa que te deu à Luz, e te acolhe em seu ventre em flor.

© Célia Moura – in “Enquanto Sangram As Rosas…” (p. 106), 2010

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