Num breve delírio


Num breve delírio
em que as mãos
afagam monólogos de outras mãos
pela azáfama da cidade que despenteia gritos
escuto ainda gente que sobe e desce,
gente que vai, gente que regressa.
Cortinas que se fecham implorando silêncio.
Janelas que se abrem para mais uma jornada.

A cidade amanhece de pombos e chilrear de pardais
num enredo sem preocupações
enquanto o poeta olha como quem vê a musa amada
e na sua escrita oblíqua, não escreve nada.
Desenha os cães verdes com que sonhara
e continua observando entre um gole de café e um bafo no cigarro as figuras do costume na cafetaria defronte
à livraria, onde só por vergonha não passaria horas.

Das minhas águas furtadas
vejo-o sempre alheado e cabisbaixo,
monologando por vezes,
como se arrastasse toda a sabedoria e todos os que foram
no seu rosto de velho.
Esse rosto onde me revejo dali a alguns anos,
essa solidão que me irá morder.

Sinto seus passos pesados nas escadas,
abro as cortinas e convido-o a entrar.
O mar beijou a sala inteira.

© Célia Moura, 27.05.2017

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