A minha velha coberta


velha-cobertaA minha velha coberta
Sempre que a minha Mãe me estendia uma velha coberta no quintal sob a nespereira que eu também ajudara a plantar, e por lá espalhava alguns dos meus brinquedos, com os quais eu me entretinha tardes inteiras, por ali ficava totalmente alheada, inclusive aos vizinhos que passavam.
Ela sempre se gabava para todos o quanto eu era educada e sossegada.
Tinha razão, era-o até demais!
Porém, nunca soube que no meu sossego sempre inventei uma série de personagens para brincar, excepção feita ao meu rafeiro lindo de preto vestido e manchinha no peito, companheiro de sempre e bem real.

Sei que sempre pedi permissão para tudo, tão severa foi a educação que me foi dada, ao ponto de ainda hoje passados tantos anos o fazer.
Palavra que não consigo abrir um armário ou o frigorífico nas duas casas onde vivi anos, sem pedir permissão. Tanto na casa de minha Mãe, como em casa de minha tia-madrinha.
Não me sinto eu e sempre ouvi dizer que a casa da família deveria ser como a nossa casa. Isto por parte da família do meu pai, que não vejo há anos. Mas sentia-me confortável com isso, ainda que não fosse verdade.

Hoje, ainda me debato procurando uma explicação racional, mas nunca chegando a alguma conclusão, pois não sei se na época esta dualidade que hoje sinto e controlo poderia ter algum nexo em tão tenra idade, essa dos amigos que inventava.
Talvez seja normal em todas as crianças. Não faço ideia!

Será que os meus amigos imaginários seriam apenas um escape de uma criança sozinha, ou já existiram de facto dentro de mim?
Nunca me preocupei com isto, nem preocupo, mas o que acontece connosco em certas fases da vida, poderá permanecer até ao fim de nós.
E a minha libertação ao longo da vida sempre aconteceu de súbito, quando me senti demasiado acorrentada, talvez por isso nunca tenha sentido neste mundo uma liberdade tão completa quanto o silêncio ou o elixir da música.
Eu totalmente absorta, sentada na minha velha coberta até o sorriso de minha Mãe me vir buscar para o jantar.

© Célia Moura “monólogos descontínuos” – 09/06/2017

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