Abocanharam De Mim As Acuçenas


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Abocanharam de mim todas as primitivas açucenas
Teu sabor,
E até os gestos com que me abraçavas.
Não sinto nada que não sejam estilhaços do tempo,
Esse que alicercei junto aos canteiros e às minhas lápides.
Conchas que há anos recolhi e decidi que regressariam ao mar
Antes de mim.

E as lápides sempre defronte a ti,
Fazendo-te cócegas no umbigo
Mas que jamais conseguiste vislumbrar!
Quanta insensatez, quanto empedrenimento!

O meu fóssil instalado no rubor da sala
Decerto sempre me sentiu mais que qualquer um de ti!
E conseguiste ser tantos!
E nenhum…

Não sinto nada,
Nem um gemido da guitarra esquecida que sempre me embalava.

Abocanharam-me!

Fizeram de mim o que nunca fui.
Vestiram-me de palhaça e nunca brinquei
Vestiram-me de puta e nunca amei
Vestiram-me de poeta e não me exorcizei,
Vestiram-me de beleza e nunca me amaram.

Toleraram-me como a uma peregrina
Que segue seu percurso,
Como a mendiga repleta de filhos
Sem ter tido filho algum.

Quem me dera ter permanecido intacta
Qual estátua de um escultor
E não ter dado sequer um passo!

Quem dera ter permanecido
Entre o sonho e a penumbra de todas as alvoradas
Adormecida entre nenúfares e pássaros azuis,
Quem me dera ter partido num abraço de açucenas!

© Célia Moura, poesia a publicar, 2016 (18,Junho.2016)
(Andre-Kohn painting)

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