Vou desfiando este meu pranto

Vou desfiando este meu pranto.
Útero de convulsões
contracções de alma vibrante e morta,
lamparinas de açougue.

Vou desfiando queixume de rosas
e o Amor jamais parido
entre os alvéolos e o riso dos olhos alheios
a esta gente que sofre.

A praça continuará defronte à igreja,
as crianças brincarão, os jovens namorarão ou não,
assim como qualquer coisa, qualquer tipo de gente
irá passar inúmeras vezes por ali sem que algo faça sentido algum,
como se a vida tivesse que necessariamente fazer algum sentido!

E eu que sentido faço?

Não passo de uma sombra disforme na parede nua
do meu quarto outrora repleto de ti.

Vou desfiando sorrisos
de um tempo feliz
indiferente ao que me praguejam
e ao uivar dos lobos.
São como latidos de cachorro povoando a serra
deste silêncio.

Creio que a praça permanecerá,
atravessando gerações
assim como creio em Deus Pai, Deus Filho, no Espírito Santo
e em todas as formas de arte.
Ámen!

© Célia Moura poesia (14.VII.2017)
(Patrick Odorizzi photography)

Anúncios