Quem me dera escrever um poema


Art/e (c) Andrew Lucas photography

Quem me dera escrever um poema
que dissesse sorrindo
isto que sinto gritando!

Esta ânsia magistral,
este útero dolorido
de ter nascido tulipa
em vez de rosa ou papoila,
ou seja lá o que for,
mas outra e não isto!
Este ser incómodo,
como incómodos são os pobres sempre à míngua
sempre sem nada, num país
onde os gatos comem gambas
e os cães bolos de arroz ao pequeno-almoço!

Quem me dera escrever um poema realmente bonito,
um poema digno!
Daqueles que toda a gente gosta mesmo sem ler.

Um poema que só falasse de paz e flores.
Ah quem me dera ser poeta de geniais amores perfeitos!

Mas eu observo
e ao observar, penso.
Essa é a minha pior indigestão e talvez a consequência
de não saber escrever poemas dignos.

Se eu pudesse estancar o pensamento com um garrote,
talvez deixasse de ter insónias
e entendesse de vez, que mais me valeria ser mecânica
fazer tudo, todos os dias automaticamente
do que sentir ou pensar.
Tiraria um curso intensivo pela net e quem sabe assim fosse feliz e escrevesse o que toda a gente gosta de ler.
“A cereja no topo do bolo” seria sem dúvida
asfixiar esta ânsia desmedida,
este ser que tanto me aborrece desde menina e sentir nos seios todas as flores.

© Célia Moura
(Andrew Lucas photography)

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