JM Ascenso – Tributo ao Livro “No Hálito de Afrodite” de Célia Moura


tributo-livro-halito-de-afroditePELOS MEANDROS DO HÁLITO DE AFRODITE
Embrenho-me no Hálito de Afrodite
E vejo-me nas asas dum canto erótico
Que sibila por brisas de primaveras uterinas
E por rios seminais
Que dão a barras de volúpia
Abertas a mares-com-marés-vivas de gozo
Que se arrogam na lasciva sinfonia dos odores orgásticos.
E o canto ecoa
Como se saísse duma afinada orquestra de violinos
Surfando na crista das ondas
Em descida vertiginosa
E embriagada loucura,
Para finais que se espraiam em apoteóticos espasmos.

Soltam-se os hálitos do desejo
Pelos cerros das madrugadas
E pela noite ficam olimpos abertos
Às carnes aguadas
Que se consomem no embalo dos corpos
Pela essência assexuada e despida
Dos púbicos assomos
Que se elevam a tântricos momentos.
E o hálito é quente
Pelo desenrolar das palavras silabadas
Nas vertentes dos peitos
E pelos lisos córregos
Dos lábios tangidos p’las bocas ávidas
Que acendem chamas nas línguas …
….. intrínsecos vortilhões em fúria
Pela fúria da vontade das carnes vivas.

E pelas páginas suam os sexos
No confronto sem remanso
Que pelo côncavo das mãos
Acompanha o ritual das danças.
E à frescura das coxas em transe
Junta-se o bailado dos ventres
Em conubial vibração com o jogo cruzado
Das pernas.
Ó sublime hálito
Que já eras arte
Quando Afrodite ainda era deusa Astarte
E já se entregava divina e fera
Aos eróticos prazeres da despida cupidez.

Bendito é o livro que evolui por este afrodisíaco bafejo
E o move pelas fímbrias das paixões intensas
E pelos molhos vigorosos onde o amor se deita
E pleno se faz
Na nudez dos véus e sem umbreiras nas portas.
E é lúcido o verbo
Que-ama-num-amar sem limites
Pelo descarregar das sementes quentes
No luxurioso algar
Que se expande por clitórico desabrochar.
E pelos versos
O cântico é um oásis
Que-sacia-a-sede-dos-halos-onde-flamejam-frescos-bicos …
….. mamilos que esperam o dedilhar da boca.

Bendita é esta fome
Que arrulha e canta no incêndio
Alimentado pela combustão dos corpos.
E Afrodite faz-se poema
Pelo respirar das estrofes,
Enquanto pela ideia pensada
E prensada
Pelo fogo vivo da degustação das púbis
O cântico é um hino que se eleva ao auge
Pelo abandono das palavras que não se dizem
Porque não são precisas
No estremecer das peles coladas
Que se querem repetir em chão,
Cama, ou parede lisa.

Avanço por este hálito
Suado de palavras tão presentes como ausentes,
Passo por lembranças gravadas em cópulas sem núpcias
E não encontro rasuras …
….. tão límpida é a escrita
Que pelas fêmeas ondas do musical grito
Se vê cantada em acordes-de-sol-maior,
Enquanto pelo cio o mastro rompe a vela
E sia pelos favos de mel
Que adoçam a fluência da ria púbica.
E fica pelas entrelinhas
A estridência das crinas ao vento …
….. cabelos seguros por mãos ágeis,
Lianas que se estendem
Num ir e voltar pelos cordames do peito
E o côncavo das coxas em redondas nádegas.

Ah!!!…
Como são belos os cadernos dourados
Que se soltam das fagulhas dos corpos em brasa!!!…

E são douradas as letras
Mesmo-quando-é-de-prata-a-luz-das-luas-cheias
Que soltam os êxtases já revelados
E aguçam aqueles que hão de ressoar pelo espremer das carnes
Num só hálito.
Braços … abraços … chama …
…. amar-amor por chuva temporã
Que vem pelo fluir diáfano dos plúvios fluidos
Que se soltam das raias-da-cadência-dos-lanudos-mantos
Que se tocam em selváticas rondas.
E Afrodite descobre-se,
Qual gladiadora brandindo o cio da fêmea
Para agitar o sémen
E o deixar escorrer em ode triunfal
Pelos estames poéticos do orgástico olimpo …
….. hálito infinito
Que se sente pelo ressoar das vias seminais
Nos-seixos-corpóreos
E pelas gárgulas das trompas
Em sintonia com o brilho dos nácares
Que emergem dos ventres geminados.
É um hálito sempre novo
Que vem da “exaustão derramada”
Pelo “cio das feras”.

Haja núpcias pela benigna loucura dos versos,
Pelas palavras prensadas
Nos cálices do Santo Graal
Que por maior embriaguez
Se acomodam nos tabus celestiais.
O céu???…
O céu é o gozo parido do amor feito
Em gávea térrea,
É o estilhaçar do prazer
Pelo obelisco que rasga as rugosas paredes
Que rogam por tempo incessante.
O céu é o livro
Aberto à invasão dos gemidos
Pela quilha que penetra o abismo
Tão salutarmente lascivo
Entre o sangue que ferve
E a fervura que escalda
O abraço das púbis.

E eu vou por aí,
Vou por esse hálito,
Prossigo pelo delírio dos lóbulos mordidos
E pelas mordidas na rigidez dos bicos …
…… hirtos montes que incendeiam as vertentes
Dos vergéis dos seios
Pelas-florestas-de-surpresas-a-desvendar-em-cada-dia.
Não se perca este hálito,
Esta substância afrodisíaca
Que refulge pelo reino da deusa
Que liberta este fogo
Que o Poeta vincou “que arde sem se ver”.
Que arda … que seja lume pelo lavrar dos sexos,
Pela rebeldia dos assexuados poros,
Pela intensidade dos festins
Que não conhecem recobro
Porque exaustos nunca são
Nem conhecem cefaleias.
Que não se perca este hálito,
Este terreno hábito que percorre o livro
Com olores de vida espremida
Que vem da posse e da ternura que desliza
Pelos leitos dos amantes.

E que se acendam círios
Pelo padrão erguido em festa
No rasgar das entranhas
Quando o fulgor é tempestade no reino de Afrodísia
E quando o rumor maior
Estala no nevrótico sítio
Pelo penetrar do másculo acervo
No monumental vestíbulo de Vénus.
Não faltem as palavras,
Não falte o verso,
O poema, a poesia,
Para que os corpos não se ausentem
E se venham por reais enfeites
Que não sejam simplesmente pendurados em paredes
Como adornos de sala,
Ou sagas pornos
Arquivadas nas gavetas das bibliotecas
De vetustos moralistas.

© JM Ascenso – A publicar um dia em IDENTIDADE
Maio/2019

Anúncios