A Flor e o Asco


(c) Vadim Stein photography

A Flor e o Asco

Decerto hei-de escrever
a forma como me matarás,
até lá brincarei com as açucenas
que abominas
e peço perdão ao Infinito
por todos os que riram desta lama,
desta incomesurável dor
desde as ilhargas até ao peito.

Ainda que ninguém saiba,
eu sei e tu também
o quanto fizeste arder toda a poesia
na fogueira,
o quanto meu corpo gemeu
por todos os abraços
que me desprezaste.

Não, não sou tua flor!
Sou uma mulher,
que transformaste em asco
sou de ninguém.

E antes que me mates,
hei-de parir todos os filhos
que nunca quiseste de mim.
E porque haverias de os querer
se sou tua flor
loucura absoluta
destas noites sem alvorada,
numa verdade feita mentira
deambulando nua
por todos os jardins
que de meu ventre arranscaste!

(c) Célia Moura, inédito
(Ilustração – Vadim Stein photography)